Não aceitaremos o genocídio da população negra, seja por covid-19 ou violência



Créditos da foto: Manifestantes seguram faixa que diz ‘Vidas negras importam!’ contra o racismo, em São Paulo no dia 14 de junho (AFP)

Por Alexandre Padilha e Florentino Leônidas para Carta Maior 

No começo da pandemia todos afirmávamos que teríamos o maior desafio de nossas vidas, e lutaríamos contra um inimigo invisível, capaz de atacar a todos e sem distinguir ninguém. Passados seis meses desde o primeiro caso da covid-19 em nosso país, o inimigo ainda não foi derrotado, mas o invisível vírus ataca aqueles que são invisíveis para o governo genocida que nos governa.

Recentemente, o Instituto Pólis divulgou pesquisa onde apresentou dados de que a taxa padronizada de mortalidade pela covid-19 na população negra em São Paulo é 49% maior que a da população branca do mesmo município, estes se somam a diversos outros para exemplificar o racismo estrutural de nossa sociedade.

Na última semana, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgaram o Atlas da Violência 2020 que aponta que os homicídios na população negra aumentaram em 11,5% na última década, enquanto na população não negra reduziu em 12,9% no mesmo período.

A covid-19, os homicídios, a violência policial, a agenda bolsonarista de retirada de direitos, a pobreza… são alguns dos sintomas aparentes, de uma sociedade que tenta invisibilizar os que estão visíveis em todos os cantos e lugares deste país.

O racismo estrutural tem buscado construir uma agenda que aprofunda as diferenças históricas, que reforça os preconceitos e que constrói no genocídio da população negra, seja por homicídios ou pela pandemia, o maior expoente da sua narrativa.

Além disso, temos o racismo institucional trazidos também nos inúmeros estudos que revelaram que as mulheres negras recebem menos analgesia no parto ou que os profissionais da saúde ficam menos tempo com pacientes negros. Também vimos a reação xenófoba e racista na vinda ao Brasil dos médicos e médicas cubanas do Mais Médicos, que trouxeram caras e cores tão diferentes do padrão usual da elite médica. Esses estudos e situações revelam que além do racismo estrutural dificultar o acesso aos serviços de saúde, o racismo institucional presente nos serviços de saúde excluiu os que conseguem acessar.

Contra toda essa agenda, só existe uma solução, que o nosso juntar de forças contra o racismo seja amplo e sincero, que não possamos abrir mão de uma sociedade antirracista, inclusiva e igualitária, e para isso disputar as estruturas reais de poder é crucial.

Pela centralidade desta agenda, Benedita da Silva, mulher, negra e deputada federal é um nome que entrará para nossa história. A ação da Deputada Benedita em assegurar a distribuição igualitária de recursos financeiros e de tempo de propaganda política para candidatos negros é um passo histórico na busca por superarmos a sociedade racista e majoritariamente comandada por brancos que nós temos.

Assegurar aos negros o poder, este é o resultado da proposta da Bené que foi aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esta semana. É difícil exercitar a fala de momentos históricos sem a distância necessária do tempo, mas este acontecimento, sem dúvida ficará para as gerações, pois é de atitudes como esta que podemos dar mais visibilidade e lutar contra os casos diários de racismo que observamos.

A decisão do TSE é histórica para que possamos aumentar a representatividade de deputados negros em nosso parlamento, mas também é parte de um processo para que não exista mais prisões injustas e racistas como a do Mestre de Capoeiras Nenê, que foi covardemente agredido pela Polícia em frente ao seu filho, no último dia 20.

A coragem e ousadia de Bené em lutar por este direito é também símbolo da resistência e da força dos negros e negras do nosso país e do mundo, como os jogadores de basquete que nesta semana mostraram que não é normal praticar um esporte enquanto Jacob Blake é alvejado com sete tiros policiais de maneira cruel.

O racismo hoje é estrutural e normalizado pelos nossos governantes, seja o Trump ou sua cópia brasileira, o Bolsonaro, mas a luta antirracista aglutina e ganha força com os acontecimentos recentes, e não aceitaremos o genocídio da população negra, seja pela covid-19 ou pela violência. O lugar do negro é onde ele quiser.

Alexandre Padilha é médico, professor universitário e deputado federal (PT-SP). Foi Ministro da Coordenação Política de Lula e da Saúde de Dilma e Secretário de Saúde na gestão Fernando Haddad na cidade de SP.

Florentino Leônidas, sanitarista pela Universidade de Brasília, especialista em políticas públicas pelo Insper e mestrando em Políticas Públicas de Saúde pela FIOCRUZ.

 

Padilha, Benedita da Silva e Douglas Belchior debatem os impactos da covid-19 na população negra



Dados explicitam como a covid-19 está impactando a população negra, escancarando as desigualdades, o racismo estrutural no Brasil e no mundo. Este foi o tema do programa da Rede em Defesa da Vida da TV PT desta segunda (24) apresentado pelo deputado federal e ex-Ministro da Saúde Alexandre Padilha. O debate contou com a participação de duas grandes lideranças da política brasileira e dos movimentos sociais da luta antirracista no país, a deputada federal Benedita da Silva e do Professor e Fundador da Uneafro Brasil, Douglas Belchior.

Padilha iniciou o debate sugerindo a avaliação dos convidados sobre o impacto da covid-19 a esta população mesmo com a pouca visibilidade aos vários estudos evidenciando que a grande maioria das mortes pela doença acometem a população negra. O parlamentar trouxe um estudo realizado no Rio de Janeiro pela Fiocruz que mostrou que a maior parte dos infectados confirmados são dos bairros da classe alta, que tiveram o acesso a testagem e o maior número de óbitos, nos bairros periféricos da cidade.

A deputada Benedita da Silva ressaltou que nunca houve interesse por parte do governo Bolsonaro em reduzir essas desigualdades e que ela se agravou quando a covid-19 chegou ao país. “A maioria da população negra já foi altamente impactada logo no início da pandemia com a falta de acesso a água, sabão, álcool em gel, condições necessárias habitacionais. Além disso, algumas pessoas não entendem a dificuldade do isolamento social para a comunidade negra, que tem mais medo de perder o emprego do que propriamente arriscar sua vida. Se não temos um governo que de respaldo para essa situação é impossível que essas pessoas tenham a cobertura que precisam. Temos uma grande segregação racial colocada nesse momento e a coleta racial de casos é fundamental para enfrentarmos a pandemia”.

Para o Professor e Fundador da Uneafro Brasil, Douglas Belchior, o planeta estava paralisado por conta da pandemia e o único fenômeno suficientemente capaz de atravessar esse cenário enquanto tema mobilizador foi o conflito racial a partir do que aconteceu nos EUA com o caso George Floyd, onde ficou constrangedor que outros aspectos não fossem analisados também neste cenário.

“A pandemia quando chega no Brasil poderia encontrar um ambiente menos sensível e fértil para tragédias se a saúde pública fosse tratada com seriedade, mas o ambiente que a covid-19 encontra no Brasil é propicio para barbárie e afeta mais aqueles historicamente já afetados. Os danos causados pela pandemia serão de longa duração e também afetarão a mesma população”.

Rede em Defesa da Vida na TV PT

A “Rede em Defesa da Vida” é uma Frente de Proteção com intuído de levar informações sobre a crise sanitária ocasionada pela covid-19 e que tem por missão fortalecer a vida e o SUS.  Faça parte e colabore com a ampliação da Rede compartilhando ou disponibilizando a transmissão do programa nas suas redes sociais para que a defesa da vida seja difundida para o maior número de pessoas. Caso precise de ajuda para reproduzir a live, entre em contato com a gente nas redes @padilhando ou pelo WhatsApp (11) 97581-4398.

 

Veja como foi o debate na íntegra: