O que está escondido no acordo União Europeia e Mercosul?



*Por Alexandre Padilha e Alexandre Pupo, para Revista Fórum

O Governo Bolsonaro comemora nesta semana a conquista de um acordo de livre comércio com a União Europeia (UE). Além de se apropriar de um processo de mais de 20 anos de negociação, o governo mostra como age de forma incoerente e submissa na área da diplomacia internacional. O ministro das relações internacionais ataca desde sua posse o que chama de “globalismo”, apoiado pelo guru Olavo de Carvalho e dizia trocar os espaços multilaterais pelas negociações bilaterais. O próprio Ministro da Economia, Paulo Guedes, havia declarado que o MERCOSUL não era sua prioridade, por ser um órgão muito “ideológico”. Mas parece que o jogo mudou, e é importante compreender que há mais coisas por trás desta decisão do que se aparenta.

O Brasil se encontra em num dos momentos mais frágeis da sua trajetória internacional. Um Presidente que voa até Davos e não faz uso nem de 15 minutos para se apresentar perante o mundo, que viaja sem agenda para encontros multilaterais, quebra tradições históricas do Itamaraty em votações na ONU e reorienta sua política externa em subserviência aos interesses norte-americanos. Além disso, a crise econômica a qual atravessa nosso país e a vizinha Argentina, nos coloca numa posição de fragilidade para fazer qualquer pressão ou contraproposta em acordos comerciais, enquanto bloco regional. 

Acordos de livre comércio são muito importantes para garantir a internacionalização da nossa economia e garantir o aumento da qualidade e da competitividade da produção nacional, inclusive para que ela conquiste outros mercados no exterior. Entretanto, os termos deste acordo devem ser justos e responsáveis, ainda mais se tratando de comercio entre regiões com níveis de desenvolvimento e renda tão diferentes. 

Ao longo dos nossos governos, demos prioridade às relações comerciais com outros países em desenvolvimento. Nessas negociações, os acordos podem ser mais justos, e a transferência de tecnologias e produtos gera a possibilidade de um desenvolvimento mais distribuído e menos concentrado. De fato, as nossas relações internacionais nunca foram orientadas apenas pela lógica do livre comércio, na sanha liberalizante que marca esse governo de Bolsonaro e Guedes e nós faz lembrar tanto dos anos 1990.

Este foi um dos motivos pelo qual as negociações levaram tanto tempo. Em 2004, elas foram interrompidas porque a cota de importação de carne bovina – um dos produtos com mais competitividade que nosso bloco possui – que a União Europeia estava aceitando, era menor do que o aceitável pelos nossos produtores. À época, a nossa demanda era de 300 mil toneladas, o acordo fechado por Bolsonaro reduz esse valor em três vezes, colocando como cota 99 mil toneladas de carne. Por motivo inverso, o governo francês está reticente em ratificar o acordo. Por lá, os agricultores estão reclamando que os termos das trocas na área agrícola vão atingir muito a suas produções e estão pedindo proteção do governo. 

Por esse motivo, é tão importante conhecer os detalhes deste acordo. A maior parte dele ainda não foi publicizada, mas já há informações que apresentam motivos para preocupação. Parte importante do acordo foi a abertura dos mercados de compras governamentais, que no Brasil é da ordem de R$ 78 bilhões. Com isso, empresas europeias vão poder competir em licitações do governo brasileiro em pé de igualdade, como se brasileiras fossem. 

Somado ao efeito destrutivo da operação Lava-Jato no setor da construção civil, as empresas de engenharia civil e os milhares de empregos envolvidos nesta área, ficam ainda mais em risco. Em especial, por se tratar de um dos setores em que o Brasil apresentava grande competitividade – além de alto valor agregado – e que foi completamente desmontado nos últimos anos. 

Temos que prestar atenção nas áreas ligada à saúde. Medicamentos para medicina humana e veterinária correspondem a 10% das importações da UE para o Brasil hoje, e a abertura deste mercado com certeza resultará em negócios bilionários para indústria farmacêutica europeia, sem garantir a transferência de tecnologia e pesquisa para o Brasil. Mas o mais importante será garantir a continuidade da produção e distribuição dos remédios genéricos no Brasil. O Brasil não pode permitir que por discussões de patente seja suspensa a produção destes medicamentos essenciais para a saúde pública. 

Além disso, ele presume a liberalização dos serviços de postagens e telecomunicação, podendo levar à privatização dos Correios e a abertura do mercado de televisões ao capital internacional. 

O acordo deve levar até 15 anos para a sua implementação total, e o primeiro passo será passar pelo escrutínio do parlamento europeu e dos quatro países que compõe o MERCOSUL – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. É um acordo grande, que dá conta de mais de 90% do comercio entre os blocos, mas que deverá ser analisado em detalhe pelo nosso Congresso Nacional. As negociações até agora foram todas feitas a portas fechadas e com pouquíssima transparência, muito diferente do que era feito ao longo dos nossos governos, quando todos os setores interessados eram chamados a participar e trazer suas opiniões. A análise parlamentar deverá ser feita na perspectiva de garantir emprego e soberania, não permitindo que um acordo como esse traga mais problemas à já fragilizada economia brasileira. 

Um ponto importante deste processo das últimas semanas foi a exposição e a pressão internacional feitas sob o presidente, acerca da sua política ambiental e de direitos humanos. Governos e sociedade civil de diversos países europeus se pronunciaram contra os posicionamentos de Bolsonaro na questão ambiental e sobre o clima de risco que os Direitos Humanos correm em nosso país. O presidente teve que voltar atrás, defender a permanência no Acordo de Paris e se comprometer com quesitos do acordo que tratam de legislação trabalhista, redução do desmatamento e proteção das terras indígenas. 

Diferente deste governo, nossa política nunca tratou estes temas como moeda de barganha para conseguir acordos comerciais. Pelo contrário, nossa política externa altiva e ativa, transformou o Brasil num dos principais atores do cenário internacional. Nossa atuação foi calcada no respeito e no princípio da soberania e do multilateralismo, na defesa dos países emergentes, no fortalecimento dos processos de negociação de paz em oposição às saídas armadas, na luta por políticas ambientais que garantissem o desenvolvimento sustentável e na defesa e efetivação dos direitos humanos. Como membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, estarei atento na tramitação deste acordo e à disposição para o debate com a sociedade sobre cada ponto nele estabelecido. 

*Alexandre Padilha é médico, professor universitário e deputado federal eleito pelo PT-SP. Criador do Mais Médicos, ministro da Coordenação Política de Lula e da Saúde de Dilma e secretário da gestão Haddad.

*Alexandre Pupo é advogado, cientista social e militante da juventude do PT

Em 2019, maior desafio da saúde pública no Brasil é a sobrevivência do SUS



Da Rede Brasil Atual

A saúde pública no Brasil poderia estar sendo discutida em termos de avanços na cobertura de atenção básica, de melhorias no atendimento ou de inclusão de novos procedimentos no Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, em pleno 2019, o grande desafio da saúde pública no país é a sobrevivência do SUS. “Nosso principal desafio é salvar o conceito de saúde pública como direito. As atuais propostas de flexibilizar regras para planos de saúde, impor um teto de gastos por meio da Emenda Constitucional (EC) 95 e a proposta de desvinculação de receitas da saúde, acabando com o gasto mínimo obrigatório, estão destruindo o SUS”, afirmou o ex-ministro da Saúde e deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP).

Apenas em 2019, o SUS perdeu cerca de R$ 9,5 bilhões no orçamento federal, devido às restrições impostas pela EC 95. Estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indica um aumento das taxas de mortalidade infantil, até 2030, e o governo federal propôs a extinção da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), o que obrigaria os povos tradicionais a buscar o atendimento regular nas unidades de saúde. “Em vez de discutir a ampliação e melhoria dos serviços, tem se restringido o acesso da população aos serviços, ampliando as terceirizações e o fechamento de equipamentos”, destacou Padilha.

A opinião é compartilhada por Maria José de Souza, presidente da União dos Movimentos Populares de Saúde da Cidade de São Paulo. “Garantir que o SUS mantenha o vigor e não deixar que os governos atuais, federal, estadual e municipal, acabem com o sistema. Eles querem é tirar o dinheiro da saúde para movimentar como bem entendem. Não aceitam que exista uma verba destinada exclusivamente ao atendimento de saúde da população”, afirmou ela, durante manifestação para celebrar o Dia Mundial da Saúde, na última quinta-feira (4).

Essa verba garantida para a saúde é da ordem de 15% da arrecadação de impostos, no orçamento federal. O que equivale hoje a R$ 128 bilhões. “Se os gestores públicos tiverem liberdade para gastar esse montante como querem, é o fim da saúde pública no país. Hoje já há um incentivo à criação de planos de saúde de baixo custo, reduzindo ainda a restituição de verbas ao SUS quando uma pessoa coberta por convênio utiliza o sistema público”, explicou Maria. A proposta de acabar com a vinculação de receitas foi citada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, mas ainda não há uma Proposta de Emenda Constitucional sobre o tema.

A militante ressalta que, na capital paulista, a gestão do ex-prefeito e atual governador, João Doria, e de seu sucessor, Bruno Covas, ambos do PSDB, já propuseram fechamento de Unidades Básicas de Saúde, das farmácias públicas e cortes de verbas nos contratos de gestão das Organizações Sociais de Saúde, da ordem de 15%. Cerca de 70% da verba de saúde municipal é administrada por essas entidades. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) passa por uma reorganização, que tem sido criticada pelo risco de precarizar o atendimento à população, com o objetivo de uma economia de R$ 5 milhões ao ano.

“A principal reivindicação de quem luta por melhorias na saúde pública hoje é revogar a Emenda Constitucional 95, travar qualquer proposta de desvincular as receitas e impedir o fechamento de serviços”, afirmou Maria.

Pelo mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS), agência da Organização das Nações Unidas (ONU), estabeleceu como meta para 2019 a ampliação do acesso e da cobertura de saúde para atender a um bilhão a mais de pessoas na comparação com números atuais. A OMS estima que metade da população não tem acesso a atendimento básico de saúde. O órgão definiu dez prioridades que os países devem atentar para atingir esse objetivo, dentre elas a ampliação da atenção primária, o combate à poluição ambiental e às mudanças climáticas, o enfrentamento de infecções transmissíveis como o ebola, a dengue, a gripe e o HIV, e de doenças crônicas.

Blog Nocaute: Fórum mundial de parlamentares discute justiça tributária



Em sua coluna semanal, o deputado Alexandre Padilha fala sobre justiça tributária. “É preciso acabar com a corrupção fiscal das transnacionais”, afirma Padilha. “Fomos nesse fórum realizado no México para denunciar as ações que as transnacionais fazem no Brasil. O país que mais compra minério de ferro do Brasil é a Suíça, que é um paraíso fiscal. Isso é uma operação que as transnacionais fazem para não pagar imposto no Brasil.”

Só falta culpar o Zé Gotinha



Por Humberto Costa, Alexandre Padilha e Arthur Chioro

 

O gráfico, abaixo, por si só, já demonstra o quanto o editorial do Globo é falacioso. Definitivamente não houve diminuição de cobertura durante os governos do PT, pelo contrário, aumentamos o número de vacinas ofertadas, ampliamos a capacidade tecnológica dos laboratórios públicos, resultando na redução da incidência de doenças preveníveis por vacinas. Isso tudo atestado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).

 

A Área de Vigilância em Saúde foi uma prioridade dos governos do PT desde o primeiro momento. Já em 2003, foi criada a Secretaria de Vigilância em Saúde no Ministério da Saúde, que, entre outras responsabilidades, assumiu o Centro Nacional de Epidemiologia e de Imunização.

 

Assim, foi criada a Coordenação Geral do Programa Nacional de Imunizações (PNI), como parte da administração direta, sob comando direto e próximo da direção do Ministério.

 

Ao mesmo tempo em que a expansão da Estratégia de Saúde da Família e a política de descentralização davam melhores condições aos municípios para a expansão e a qualificação da atividade de vacinação, o Ministério da Saúde investiu na capacidade de gestão e monitoramento das ações e deu bases formais para que as tecnologias modernas fossem efetivamente colocadas a serviço da prevenção de doenças. Dando ao PNI uma clara prioridade entre as atividades da pasta, a diretriz geral era de que toda vacina que tivesse demonstrada cientificamente boas características em estudos de custo-efetividade adequados à realidade brasileira deveria ser oferecida à população.

 

Pela primeira vez, o Ministério da Saúde passou a contar com um sistema organizado para avaliação e incorporação de tecnologias, que subsidiou a incorporação das vacinas contra rotavírus, pneumococo, varicela, meningococo C, hepatite A e papilomavírus (causador do câncer de colo de útero), além da vacina acelular contra coqueluche e da vacina injetável contra poliomielite. Várias vacinas que já estavam no calendário passaram a ser oferecidas de maneira muito mais ampla, como aquelas que protegem contra gripe, hepatite B, febre amarela e sarampo.

 

Além da ampliação mencionada, houve a preocupação de levar as vacinas aos locais de acesso mais difícil, fornecendo, por exemplo, refrigeração baseada em energia solar em várias localidades da Região Norte e dispositivos para controle de temperatura de vacinas, de forma a garantir a qualidade do produto que chega à população.

 

O Governo Federal fez importantes investimentos e fortaleceu o papel dos laboratórios produtores públicos – Instituto Butantan, em São Paulo, Bio-Manguinhos e Instituto Vital Brasil, no Rio de Janeiro, FUNED, em Minas Gerais, TecPar, no Paraná – de forma a assegurar autonomia ao país na produção de produtos tão fundamentais para a saúde pública como são os soros e vacinas.

 

Não bastassem os dados objetivos mencionados, os Ministros da Saúde do período mantinham-se informados sobre os dados de vacinação, participavam pessoalmente de incontáveis reuniões com Secretários de Saúde, Prefeitos e Governadores para a definição de ações que garantissem o alcance das metas de cobertura vacinal. Invariavelmente, eram profissionais de grande experiência em saúde pública e que participavam diretamente não apenas de todas as campanhas de vacinação, mas envolviam-se intensamente no acompanhamento do Programa.

 

É muito preocupante que o Governo Federal, desde o golpe que derrubou a Presidenta Dilma Rousseff, tenha desprezado a importância do conhecimento da saúde pública no comando do Ministério da Saúde e venha se desresponsabilizando pela sustentação do Sistema Único de Saúde. São essas as razões de fato para a queda recente das coberturas vacinais, o aumento da mortalidade infantil e da malária em nosso país.

 

Esse meio de comunicação, que participou ativamente  do golpe, deveria ter vergonha e remorso por ser um dos responsáveis pelos problemas que assolam a vida dos brasileiros, encontre os verdadeiros culpados pela queda na vacinação. E NÃO VALE CULPAR O ZÉ!

 

Cobertura vacinal entre 2000 e 2018.

Dados tabnet -DATASUS

 

Humberto Costa é médico e foi Ministro da Saúde no governo Lula (2003-2005)

Alexandre Padilha é médico e foi Ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff (2011-2014)

Arthur Chioro é médico e foi Ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff (2014-2015)

Cortes na saúde pública matam a infância



Em 2016, ocorreram 14 óbitos para cada mil nascidos vivos, um aumento de 5% em relação ao ano anterior
Imagem: Cesar Brustolin/SMCS

19/07/2018

 

Morte de crianças com menos de um ano de vida aumenta após 26 anos em queda consecutiva

 

Por Cecília Figueiredo, do Saúde Popular

A taxa de mortalidade infantil voltou a subir depois de 26 anos em queda contínua no Brasil. Em 2016, foram 14 óbitos para cada mil nascidos vivos, um aumento de 5% em relação ao ano anterior. Até então, o país registrava uma redução anual média de 4,9% desde o início dos anos 1990.

Para comentar a inversão de tendência no registro de mortalidade infantil, o Saúde Popular entrevistou Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde no período em que o Brasil se destacou como um dos países que mais reduziu a mortalidade infantil. Confira:

Saúde Popular – Como o senhor avalia o cenário atual em comparação com 2013, quando o Brasil foi certificado pela ONU como um dos países que mais reduziu a mortalidade infantil?

Alexandre Padilha – É realmente muito triste ver acontecer isso no Brasil depois de 26 anos de redução. Quando eu era ministro da Saúde, lembro como se fosse hoje, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) entrou em contato com o Ministério para parabenizar o fato de o Brasil ter alcançado, em 2012, três anos antes do que a ONU esperava, os Objetivos do Milênio de redução da mortalidade infantil.

É muito triste essa redução e apenas a ponta de um grande iceberg de destruição do Sistema Único de Saúde (SUS), das equipes da Saúde da Família, do Mais Médicos e também da rede de proteção social que cuida de nossas crianças.

O que pode levar um país a ter uma mudança grande de comportamento [nessa área]? Porque a taxa de mortalidade infantil é um indicador importante para alguns parâmetros, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que se têm num Estado.

Exatamente isso. Não à toa, a redução da mortalidade infantil foi estabelecida como uma das metas dos chamados Objetivos do Milênio, que a ONU construiu. A meta era para os anos de 2000 a 2015, exatamente por ser um indicador muito sensível para avaliar como um país está cuidando de suas crianças. Um indicador extremamente sensível para identificar melhoras ou alterações negativas no Sistema Único de Saúde e na condição social das famílias.

Por isso que aumenta tão rápido de 2016 para cá, mostrando claramente os efeitos diretos do golpe. A mortalidade infantil é um indicador extremamente afetado pela Atenção Básica de Saúde, realizada nas unidades básicas de saúde, a preocupação do pré-natal, o cuidado da gestante, da criança, a vacinação, o atendimento da criança na primeira semana de vida, o acompanhamento dessa criança.

O Brasil depois de tanto tempo teve aumento da mortalidade infantil e aumento da mortalidade da infância [até cinco anos de idade], sobretudo por doenças diarreicas, o que só reforça a tese de uma relação direta de destruição das equipes de Atenção Básica e também da piora da condição econômica das famílias.

A taxa de mortalidade infantil que deverá sair até setembro deste ano reflete o ano anterior, portanto 2017.

Fonte: IBGE

 

Doenças como Zika e Chikungunya podem ter responsabilidade pelo aumento da taxa?

Essa é uma falsa polêmica, inclusive diria que é uma desculpa esfarrapada. Falaram [governo] também do Facebook em relação à redução da vacinação, isso é cara de pau, usar isso como argumento. Isso somente seria um argumento se não tivesse diretamente ligada à forte queda da natalidade, do número de crianças que teriam nascido em 2017 e a uma interrelação ao aumento da mortalidade exclusivo a uma grande epidemia de Zika, que aconteceu em 2015.

O argumento é que, em 2016, teriam nascido menos crianças no Brasil e que as mães, durante a epidemia de Zika e Chikungunya, ou abortaram, e aí existe um risco de aumento de tentativas de aborto e até aborto clandestino nesse período, ou que as mulheres teriam adiado o planejamento de uma gravidez em função da Chikungunya, por isso teriam nascido menos crianças em 2016/2017.

Como a mortalidade infantil é uma faixa, ou seja, o número de óbitos menores de um ano de idade dividido pelo número de crianças que nascem, teoricamente nascendo menos crianças teria uma taxa de natalidade menor. A cada pequena alteração de mortes, teria um aumento maior na taxa. Certamente não é esse o motivo, existem outros dados que reforçam.

Primeiro, aumentou a taxa de mortalidade infantil em regiões onde não tivemos número importante de [casos de] Zika. Aumentou taxa de mortalidade infantil onde não tivemos redução importante da natalidade e aumentou taxa de mortalidade da infância, decorrente de outros indicadores que demonstram a piora da saúde.

Certamente as causas tem dois grandes motivos. Primeiro, a interrupção de programas da Saúde; tivemos uma forte redução de médicos no [Programa] Mais Médicos. Quando um médico saía demorou mais tempo para haver a reposição pelo Ministério da Saúde.

Teve uma decisão muito grave do Ministério da Saúde, em desvalorizar os agentes comunitários de saúde, publicar uma nova Política de Atenção Básica que prevê, inclusive, que os (ACS) não são obrigatórios. Então essa proteção a crianças de alto risco passou a ser perdida com essa desvalorização dos agentes comunitários de saúde. E cortes, já desde 2016, mais grave ainda em 2017, nos recursos do programa Rede Cegonha. Programas para tentar qualificar a assistência ao parto, pré-natal e à criança logo depois do nascimento.

Uma sequência de medidas na área da Saúde, regulada por outros indicadores, como a redução da cobertura vacinal. Reduziu a cobertura no Brasil, mas não reduziu no resto do mundo.

O que é mais grave ainda, queria chamar atenção para isso, é um estudo brasileiro publicado numa das principais revistas internacionais na área de Saúde que é uma projeção que se continuarem as políticas atuais de corte de recursos, com teto de investimentos públicos por 20 anos, corte do Bolsa Família, redução no Mais Médicos, a previsão é que 20 mil crianças poderão morrer por conta dessas políticas atuais de austeridade fiscal. Uma previsão de 130 mil internações hospitalares a mais de crianças, que não deveria ser. Tem que revogar essa medida de congelamento [Emenda 95] por 20 anos.

Padilha, o dado consolidado [taxa 2018] sobre a mortalidade infantil ainda não saiu. Costuma ser divulgado entre agosto, setembro?

É exatamente isso, mas é uma tendência muito clara já de 2016 e uma preocupação que 2017 aumente ainda mais.

 

Edição: Diego Sartorato

Link: https://goo.gl/gf3oBF

ARTIGO: Luiz Inácio Lula da Silva: Afaste de mim este cale-se



Do jornal Folha de S. Paulo

Por Luiz Inácio Lula da Silva

Estou preso há mais de cem dias. Lá fora o desemprego aumenta, mais pais e mães não têm como sustentar suas famílias, e uma política absurda de preço dos combustíveis causou uma greve de caminhoneiros que desabasteceu as cidades brasileiras. Aumenta o número de pessoas queimadas ao cozinhar com álcool devido ao preço alto do gás de cozinha para as famílias pobres. A pobreza cresce, e as perspectivas econômicas do país pioram a cada dia.

Crianças brasileiras são presas separadas de suas famílias nos EUA, enquanto nosso governo se humilha para o vice-presidente americano. A Embraer, empresa de alta tecnologia construída ao longo de décadas, é vendida por um valor tão baixo que espanta até o mercado.

Um governo ilegítimo corre nos seus últimos meses para liquidar o máximo possível do patrimônio e soberania nacional que conseguir —reservas do pré-sal, gasodutos, distribuidoras de energia, petroquímica—, além de abrir a Amazônia para tropas estrangeiras. Enquanto a fome volta, a vacinação de crianças cai, parte do Judiciário luta para manter seu auxílio-moradia e, quem sabe, ganhar um aumento salarial.

Semana passada, a juíza Carolina Lebbos decidiu que não posso dar entrevistas ou gravar vídeos como pré-candidato do Partido dos Trabalhadores, o maior deste país, que me indicou para ser seu candidato à Presidência. Parece que não bastou me prender. Querem me calar.

Aqueles que não querem que eu fale, o que vocês temem que eu diga? O que está acontecendo hoje com o povo? Não querem que eu discuta soluções para este país? Depois de anos me caluniando, não querem que eu tenha o direito de falar em minha defesa?

É para isso que vocês, os poderosos sem votos e sem ideias, derrubaram uma presidente eleita, humilharam o país internacionalmente e me prenderam com uma condenação sem provas, em uma sentença que me envia para a prisão por “atos indeterminados”, após quatro anos de investigação contra mim e minha família? Fizeram tudo isso porque têm medo de eu dar entrevistas?

Lembro-me da presidente do Supremo Tribunal Federal que dizia “cala boca já morreu”. Lembro-me do Grupo Globo, que não está preocupado com esse impedimento à liberdade de imprensa —ao contrário, o comemora.

Juristas, ex-chefes de Estado de vários países do mundo e até adversários políticos reconhecem o absurdo do processo que me condenou. Eu posso estar fisicamente em uma cela, mas são os que me condenaram que estão presos à mentira que armaram. Interesses poderosos querem transformar essa situação absurda em um fato político consumado, me impedindo de disputar as eleições, contra a recomendação do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Eu já perdi três disputas presidenciais —em 1989, 1994 e 1998— e sempre respeitei os resultados, me preparando para a próxima eleição.

Eu sou candidato porque não cometi nenhum crime. Desafio os que me acusam a mostrar provas do que foi que eu fiz para estar nesta cela. Por que falam em “atos de ofício indeterminados” no lugar de apontar o que eu fiz de errado? Por que falam em apartamento “atribuído” em vez de apresentar provas de propriedade do apartamento de Guarujá, que era de uma empresa, dado como garantia bancária? Vão impedir o curso da democracia no Brasil com absurdos como esse?