Padilha apresenta PL para a criação da Força Nacional do SUS



O deputado Alexandre Padilha (PT-SP) protocolou nesta segunda-feira (4) projeto de lei para criação efetiva da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (FN – SUS), cooperação instituída por decreto quando Ministro da Saúde, no governo Dilma, para atendimento as situações de emergência em saúde pública, com o principal objetivo de oferecer aos estados e municípios assistência à população na prevenção, repressão a situações epidemiológicas, de desastres ou de desassistência.

Padilha explica que para a Força Nacional do SUS ser acionada, o município ou estado precisam decretar estado de situação de emergência e solicitar apoio ao Ministério da Saúde. Assim, serão encaminhadas equipes formadas por profissionais de saúde voluntários das mais diversas áreas. “As equipes são acionadas e realizam orientações, ações de busca ativa, atendimentos, liberação de medicamentos e apoio na reconstrução da rede de atenção à saúde local. A cooperação está preparada para enfrentar situações de desastres e salvar vidas.“

Desde sua criação, a Força Nacional do SUS totaliza mais de 40 missões, entre colaborações de apoio a desastres naturais, eventos de grande porte (Rio+20, Copa do Mundo e Olimpíadas) e desassistência (apoio a reorganização da Rede de Atenção à Saúde, como migração de haitianos em Roraima e assistência indígena) e atuação relacionada a tragédias (incêndio em boate em Santa Maria/RS).

Com a aprovação da lei, a cooperação passa a ser considerada política de Estado e, assim, não poderá ser modificada mediante mudança de governo e passa a ser instrumento de caráter definitivo e obrigatório para o auxílio as crises de situações epidemiológicas, desastres ou de desassistência à população, como no crime da Vale, em Brumadinho, onde a atuação do Ministério da Saúde do atual governo foi aquém do que a população necessita.

“O crime da Vale em Brumadinho, evidencia o total descaso e incompetência da empresa, como também foi o crime em Mariana. Assim, faz-se necessária à aprovação de leis que tragam segurança à população e ofereçam auxílio para esses tipos de desastres, por isso a aprovação da lei, para que esse serviço seja efetivo e eficiente”, explica Padilha.

 

Confira o texto do PL na íntegra:

Projeto de Lei – criação força nacional do SUS – última versao 04.02.2019

 

 

Padilha: O desastre de Brumadinho e a crise ambiental



A grave crise estrutural e política brasileira com epicentro na economia, iniciada em 2008 e ampliada em 2013, aprofundou a desigualdade, aumentou o número de conflitos, resultou no golpe parlamentar de 2016 e apresentou uma terceira face, a ambiental. Essa face da crise fez avançar a apropriação privada sobre os bens da natureza, como água, biodiversidade, minérios e petróleo, e sobre as populações que vivem e retiram da terra o seu sustento.

O golpe institucional contra a presidente Dilma foi arquitetado para salvar da crise os seus autores, jogando todo o peso de sua administração nas costas da classe trabalhadora. Foi sobre ela que recaiu a PEC do teto de gastos, o controle seletivo do orçamento público e manipulação das taxas de câmbio e juros, a reforma trabalhista, os leilões de blocos do pré-sal, toda uma política de proteção dos rentistas, junto com arrocho dos trabalhadores e desemprego.

No entanto, passados três anos do golpe e da implementação dessas medidas, os problemas da crise não se revolveram. Ao contrário, se aprofundaram. A eleição de Bolsonaro representa a continuidade e o aprofundamento dessa crise. A face política dela surgiu já nos primeiros dias de governo, com a família do presidente se afundando no lodaçal de denúncias de malversação de recursos públicos, envolvimento com milícias e na incapacidade de gerenciamento da máquina pública.

Na questão ambiental, a crise vem se aprofundando desde o governo Temer, em uma escalada predatória cuja tragédia de Brumadinho é o último monumento fúnebre do avanço do capital sobre pessoas e a biodiversidade brasileira.

Temer anistiou grandes grileiros da Amazônia, quis extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), extensa reserva mineral situada no nordeste da Amazônia entre os estados do Pará e do Amapá, diminuição de territórios indígenas, redução de unidades de Conservação, enfraquecimento do licenciamento ambiental, aumento da violência contra indígenas, extrativistas, quilombolas e trabalhadores rurais.

Assim como o decreto que transfere a competência da demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura, também podem vir a ocorrer novos crimes como o da Vale em Brumadinho, onde o capital financeiro vai muito mais além do que o direito à terra e à proteção do meio ambiente.

Essa escalada contra o meio ambiente não apenas continuou com Bolsonaro como atingiu níveis nunca vistos. A começar pela escolha de Ricardo Salles, condenado e com os direitos políticos suspensos por três anos por fraudar processo do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Tietê.

O articulador político do governo Bolsonaro no Senado, Leonardo Quintão, foi relator do Código da Mineração e é notório representante dos interesses das mineradoras. Quintão foi autor e articulador da retirada da MP que criou a Agência Nacional de Mineração de dois dispositivos que aumentariam a fiscalização de barragens de rejeitos, como a da Vale, que rompeu em Brumadinho. O próprio presidente, autuado por crime ambiental em 2012 por pescar ilegalmente na Estação Ecológica de Tamoios, completa essa tríade que se soma a ocupação de nacos importantes do Estado pela bancada ruralista.

As denúncias contra a Vale não param de chegar, vão desde depoimentos dramáticos da população de Brumadinho e familiares de funcionários da empresa, como a omissão no Relatório de Impacto Ambiental de tabela, que alertava para o risco de problemas de manutenção da barragem de rejeitos da mina do Feijão. Com lucros bilionários, a Vale praticamente não mudou sua forma de atuação depois da tragédia de Mariana. Passado o impacto e a comoção do rompimento da primeira barragem, há três anos, tudo continuou como estava.

Levantamento da BBC Brasil afirma que a mina do Feijão pode se tornar o maior acidente de trabalho da história do Brasil e, segundo especialistas, o mais mortífero do século 21 em todo o mundo. Os impactos ambientais dessa tragédia são imensuráveis e, por gerações, será sentido.

No entanto, não devemos nos iludir: uma vez passada a comoção e a cobertura da mídia sobre a tragédia for perdendo ímpeto, a sanha predatória seguirá seu curso. Foi para isso que Bolsonaro foi eleito e que o golpe contra Dilma foi perpetrado.

Depois dessa tragédia, a poucos quilômetros do Instituto Inhotim, como uma Guernica dos trópicos, estará a céu aberto a maior obra edificada pela ganância do lucro, irresponsabilidade e descaso do ser humano: as veias abertas da barragem do córrego do Feijão a escorrer levando tudo pela frente. Sonhos, vidas, casas, estórias, flores e, sobretudo, um pouco da nossa própria esperança.

Alexandre Padilha – Deputado Federal 

Veja como foi a posse de Padilha como deputado federal



Hoje é o dia da nossa posse no Congresso Nacional. Aqui começa um mandato participativo e combativo contra os retrocessos que vivemos em um mês do novo governo. Nós, da bancada do PT, fizemos nosso primeiro ato no plenário em favor da libertação do presidente Lula e pela abertura da CPI do caso Queiroz e família Bolsonaro.  Mais tarde, elegeremos a mesa da Câmara dos Deputados, nosso bloco de esquerda, de oposição, formado pelo PT, PSOL, PSB e Rede, tem como compromisso a defesa da soberania, democracia e o direito dos trabalhadores.

 

Parlamentares anunciam consolidação de bloco de oposição ao governo com PT, PSB, PSOL e REDE



O líder da Bancada do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS), anunciou em entrevista coletiva no início da noite desta quinta-feira (31), a consolidação de um bloco de esquerda na Câmara dos Deputados, formado pelo PT, PSOL, PSB e REDE. Ao todo, são 98 parlamentares que vão se opor às políticas de retrocessos do governo Jair Bolsonaro. Ainda nesta noite (31), a Bancada do PT discute o nome que deverá apoiar à presidência da Câmara. O apoio ao candidato Rodrigo Maia (DEM-BA) está descartado pelas siglas que compõem o bloco.

Segundo Pimenta, a formação do bloco tem por base um “compromisso programático, de independência do Poder Legislativo, de distância do governo Bolsonaro, de defesa da democracia, da soberania, e em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras”. O líder petista informa que os diálogos estão abertos com o PCdoB e o PDT. “Queremos ainda hoje [31] poder anunciar um bloco ainda mais amplo. Vamos aguardar as definições do PCdoB, do PDT, e esperamos até o final da noite, quem sabe, anunciar ao País um bloco ainda mais representativo, que mostre a força da oposição dentro da Casa”. Conforme Paulo Pimenta, o grupo que reúne as quatro siglas terá uma representação importante, tanto na composição da mesa diretora, bem como nas comissões da Casa.

Candidatura

Pimenta explicou que dentro do bloco não haverá uma indicação de candidato à presidência da Câmara. Como são diversos partidos, eles têm autonomia na definição de suas candidaturas. “O PT vai reunir a bancada para discutir a sua estratégia. Ainda hoje poderemos oficializar uma posição do PT para a presidência da Casa”, adiantou o líder.

O deputado federal eleito Marcelo Freixo (PSOL-RJ) disse que o bloco ainda está em formação, mas que já considera um avanço reunir quatro partidos. “É uma vitória da esquerda que tem pontos em comum entre os partidos. São partidos comprometidos com a democracia, de oposição ao governo Bolsonaro, e com possibilidade de um diálogo intenso com a sociedade, com independência total desta Casa em relação ao governo”. Freixo também reiterou que as conversas com o PCdoB e PDT estão em andamento, e que as duas siglas são “bem-vindas ao bloco”.

Freixo destacou ainda que o bloco é mais importante do que o nome colocado para disputar a presidência da Casa. “O bloco é a consolidação política de um campo importante neste momento que vive o País”, finalizou Freixo.

Carlos Leite para PT na Câmara

 

Padilha: Metas para 100 dias mostram fragilidade do governo Bolsonaro



“Das 35 metas, apenas uma direcionada à pobreza e uma para a saúde.” Em sua coluna semanal para o Saúde Popular, Padilha fala das metas anunciadas pelo governo Bolsonaro para os 100 primeiros dias, que não passam de atos administrativos.

O governo Bolsonaro vem demonstrando cada vez mais seu despreparo para conduzir um País como o Brasil, nos representar internacionalmente, liderar o país, estabelecer relações com os países vizinhos, cada vez aparece mais encrencado com o fato de seu filho… Mas, nesta coluna, quero fazer um debate sobre o conteúdo do governo Bolsonaro, menos estilo e mais sobre as atitudes do presidente eleito.

Acredito que uma boa forma de a gente fazer um debate sobre o conteúdo é analisar as 35 metas estabelecidas pelo governo Bolsonaro, apresentadas publicamente essa semana, para serem cumpridas no decorrer dos 100 dias de sua gestão.

Primeiro lugar, o conjunto de metas mostra o despreparo, a fragilidade, a insuficiência do projeto que o governo Bolsonaro tem para o País. Tem metas que não passam de atos administrativos, outras são carta de intenções, anúncios de proposituras, outras não se concluem nos cem primeiros dias de governo. Então, um conjunto de metas que demonstra o despreparo do presidente Bolsonaro para governar o Brasil.

Mais impressionante e grave é que das 35 metas apresentadas, apenas uma está pensando na pobreza do povo brasileiro. É o anúncio de um 13º benefício no Programa Bolsa Família, que inclusive foi apresentado durante a campanha eleitoral. Se isso se efetivar, de fato, é uma agenda positiva, importante, desde que não signifique uma redução do crescimento do Bolsa Família, na ampliação dos recursos do programa.

É muito fácil criar um 13º reduzindo o número de famílias beneficiadas, criando mecanismos para restringir o repasse do Bolsa Família, reduzindo as ações de educação, ações de saúde, de gestão, nas políticas sociais dos municípios.

Também é curioso que apenas uma meta se refere à saúde. A de reforçar o Programa Nacional de Imunização, que atingiu taxas de cobertura vacinal ridículas durante o governo Temer pós-golpe e envergonhou o Brasil e todas as agências globais na área da saúde.

Ou seja, das 35 metas, apenas uma direcionada à questão da pobreza e uma para a saúde. Isso mostra para quem Bolsonaro governa.

Padilha: Enquanto Brasil afunda em escândalos, Doria aumenta a repressão e despreza a violência contra a mulher



Em 18 de janeiro, o governador de São Paulo João Doria tornou público que visa controlar e sufocar o direito constitucional de manifestação. O decreto quer regulamentar lei sancionada em 2014, após os protestos de 2013. A redação do ato normativo é cheia de inconstitucionalidades com um único objetivo: impedir o exercício da cidadania no estado de São Paulo.

Pelo decreto, manifestações com mais de 300 pessoas deverão cumprir uma série de exigências burocráticas, como aviso com cinco dias de antecedência, preenchimento de formulário padrão em que se deve especificar inúmeras informações que contrariam o texto constitucional. A função constitucional do aviso prévio é facilitar o direito ao protesto, cabendo ao poder público tomar as medidas necessárias para que ele aconteça e ponto. Os padrões internacionais de salvaguarda do direito ao protesto seguem a mesma linha do texto constitucional e indicam que o aviso prévio não deve trazer critérios burocráticos.

Ao burocratizar o direito à manifestação ao extremo, Doria desconsidera diversas dinâmicas sociais de protesto como os grupos horizontais que elegem o caminho no momento da concentração. O texto traz, ainda, a criminalização do uso de máscaras e vincula o ato a crime de desobediência, extrapolando, por evidente, noções mínimas de competência legislativa e avocando poderes do sistema de justiça ao dizer que determinada conduta é crime. Por outro lado, não há no decreto nenhuma contrapartida aos agentes do Estado.

Por fim, ao estabelecer o número de 300 pessoas como exigência do prévio aviso, Doria mais uma vez demonstra completo desconhecimento dos eventos sociais. Ou seja, assembleias estudantis, atos culturais, deslocamento de torcidas de time e tantos outros eventos da vida cotidiana, poderão sofrer repressão policial em razão das exigências burocráticas do governador. O neoliberalismo propala aos quatro ventos a necessidade de um Estado mínimo e desburocratizado, mas apenas quanto à afirmação dos direitos sociais e da regulação do capital, mas no que tange à repressão e ao exercício das liberdades civis, ele é máximo.

O ato de Doria foi publicado dias após a PM reprimir fortemente manifestação do Movimento Passe Livre contra o aumento da tarifa no transporte público da capital, tendo inclusive atingido o fotojornalista da Ponte Jornalismo, Daniel Arroyo, com um tiro de borracha no joelho enquanto cobria o ato. Nos dois atos do MPL, a PM impediu que os manifestantes cumprissem um trajeto mínimo, com repressão antes mesmo de o ato começar. Agora, com o decreto, essa forma de atuação será corriqueira.

No Decreto nº 64.075, de 21/01/2019, Doria revogou ato do ex-governador Márcio França que tratava do procedimento no âmbito da Administração Pública para o cumprimento de ordens judiciais de reintegração de posse no estado de São Paulo. França, com intenção de evitar conflitos e mortes, determinava que as ações de reintegração de posse deveriam ser previamente cientificadas ao Secretário de Segurança Pública, com a indicação de data, número de ocupantes e outros eventos importantes para o planejamento da operação. De fato, no estado em que episódios como a tragédia do despejo violento do Pinheirinho são nódoas indeléveis da violência estatal, a revogação do decreto anterior significa um estímulo deliberado para que as polícias atuem sem qualquer controle nessas ações.

Ao mesmo tempo em que reforça a construção de um Estado Policial e tenta sufocar manifestações populares, Doria vetou projeto de lei de autoria da deputada Beth Sahão (PT), que obrigava que todas as delegacias da mulher no estado funcionassem em turno de 24 horas. A proposta seria um notável avanço no enfrentamento da violência contra a mulher. O 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelou que em 2017 o Brasil teve 221.238 registros de violência doméstica, o que significa 606 casos por dia. O fórum também contabilizou o número de mulheres vítimas de homicídio em 2017: 4.539 (aumento de 6,1% em relação a 2016). Desse total, 1.133 foram vítimas de feminicídio. Mas, nada disso importa ao governador.

Enquanto os escândalos da família Bolsonaro paralisam o país antes mesmo de completado um mês na presidência, o governador João Doria aproveita para praticar atos inconstitucionais e ilegais a fim de edificar um Estado Policial, reprimir e impedir manifestações, realizar reintegrações de posse à força e deixar milhões de mulheres paulistas vítimas de violência à própria sorte.

Artigo originalmente publicado na Revista Fórum

 

Nota de esclarecimento



Sobre matéria publicada “Só 1/3 de novas vagas de graduação vai para áreas prioritárias do Mais Médicos” no jornal O Estado de S. Paulo na edição desta quarta-feira (5), trago à tona os seguintes fatos: De 2013 a 2015, foram criadas 6.391 vagas de cursos de medicina em 93 cidades, sendo 55 que não contavam com o curso anteriormente, em especial no interior de todas as regiões do país.
Esse número estava de acordo com a meta estabelecida pela Lei do Mais Médicos que estimava a expansão de 11,5 mil novas vagas em graduação de medicina e 12,4 mil novas vagas de residência médica até 2017.
Ocorre que o governo de Michel Temer primeiro criou vagas em localidades que não estavam de acordo com os critérios do Programa e, posteriormente, suspendeu a criação de novos cursos de medicina pelos próximos cinco anos, deixando assim de estabelecer a expansão da formação de novos médicos no interior do país.

Saúde Pública está em risco, alerta Alexandre Padilha



 

A política de desmonte do Estado levada à frente pelo governo golpista de Temer e as intenções já anunciadas do presidente eleito Jair Bolsonaro são uma ameaça à existência do sistema público de saúde no Brasil.

Esse é o alerta e a advertência que faz o médico Alexandre Padilha, ministro da Saúde no governo Dilma, quando foi responsável pela implementação do programa Mais Médicos –estraçalhado depois de declarações e ameaças de Bolsonaro, que fizeram com quem Cuba deixasse de participar do projeto.

“O cenário é muito crítico mesmo”, diz ele em entrevista ao TUTAMÉIA (confira a íntegra no vídeo acima). “Estamos num momento de profundo risco sobre a existência do sistema público de saúde em nosso país. Estamos na defensiva hoje. O presidente eleito não tem nenhum compromisso com o Sistema Único forte. E o congelamento das verbas para a saúde e parta os programas sociais na prática inviabiliza o SUS.”

Para Padilha, o congelamento “rasga a Constituição”, pois impede que sejam cumpridos preceitos elementares estabelecidos na carta magna: “A saúde é um direito de todos e responsabilidade do Estado”.

Ele continua: “No orçamento de 2019, a atenção primária em saúde, as unidades básicas de atendimento à família, vai ter quase dois bilhões de reais a menos. Ou seja, o que deveria ser a mais vai ser a menos em 2019”.

MORTES POR DIARREIA

As consequências para a vida dos brasileiros são imediatas e dramáticas, como lista Padilha:

“Toda a vez que há redução do acesso ao sistema de saúde pública, redução dos atendimentos e redução de outras políticas sociais associadas, há indicadores que disparam na hora. O mais sensível deles é a mortalidade infantil. Está mais do que claro que o aumento da mortalidade infantil que o Brasil teve, de 2016 para cá, depois de 16 anos consecutivos de redução –a queda vinha desde 2000, de antes do governo Lula, reduzindo ano a não a mortalidade infantil no nosso país–, tem relação direta com a redução das equipes do Saúde da Família.”

“Já houve impacto direto no aumento da mortalidade infantil, teve uma queda brutal na cobertura vacinal –que não tem nada a ver com campanha de Facebook, porque movimentos contra vacinação existem há décadas. A queda vem a partir de 2016. É brutal a redução. A gente tinha cem por cento de cobertura, passou a ter oitenta por cento, setenta e oito por cento no caso da pólio, o que tem a ver com a desmobilização das equipes.”

“E ainda um outro indicador negativo, que é o aumento das internações por doenças sensíveis à atenção básica –hipertensão, diabetes, as doenças pulmonares. As crianças voltaram a morrer de diarreia no Brasil, que era algo que a gente tinha simplesmente acabado.”

São formas de arrochar o sistema único de saúde no Brasil, impedir o seu funcionamento adequado. O que, além de tudo, revela um enorme desconhecimento sobre o peso do SUS no país, como aponta o ex-ministro da Saúde, deputado federal eleito:

“Não existe saída para a saúde, num país como o Brasil, se não houver um sistema público forte. O Brasil é uma país de renda média para baixa, ainda profundamente desigual, o mercado não resolve os problemas de saúde em nosso país. Aliás, o mercado não resolve em lugar nenhum. Os Estados Unidos têm muitos indicadores de saúde abaixo de qualquer outro lugar, custos altíssimos por ser um sistema absolutamente privatizado.”

“Num país como o Brasil é que não resolve mesmo. Para vocês terem uma ideia, mais de noventa por cento dos tratamentos de câncer no Brasil são feitos pelo SUS. Mesmo a pessoa que tem plano de saúde pelo emprego ou tem plano de saúde individual, muitas vezes o tratamento do câncer é feito no SUS, o transplante é feito no SUS, as urgências, as emergências a maior parte das vezes é feita no sistema único de saúde, pelo menos o primeiro atendimento. A SAMU, que salva qualquer pessoa no meio da rua, é do SUS. Então não existe a possibilidade de a gente ter saúde com um mínimo de qualidade sem um sistema público forte em nosso país.”

GUERRA FRIA

A entrevista com Padilha foi realizada no momento em que os 8.500 médicos cubanos participantes do Mais Médicos se despediam do país, iniciando a volta para a Cuba. A retirada foi ordenada pelo governo cubano em resposta a uma série de ameaças do presidente eleito do Brasil, que anunciou a decisão de rever os contratos que permitiam a presença dos cubanos no país.

Padilha condenou a ação de Bolsonaro:

“A discussão sobre o Mais Médicos volta à tona agora porque o presidente eleito acho que não saiu do palanque. Em toda sua vida política como deputado federal e como uma das mais agressivas lideranças da oposição ao governo Dilma, teve esse seu discurso de ódio. Infelizmente, passada as eleições, em vez de perceber que ele deve ser o presidente de todos os brasileiros, ele resolveu repetir esse discurso.”

Na opinião de Padilha, a discussão sobre a presença dos cubanos não tem nada a ver com a qualidade dos médicos nem com o regime de trabalho, mas sim com a questão ideológica:

“Sinceramente, acho que tem uma tática no Brasil de tentar construir um roteiro de filme de 007: o retorno da guerra fria. A matéria que saiu ontem sobre o Mais Médicos, querendo dar ares de negociação secreta entre o PT e Cuba, de troca de informações entre as embaixadas de Brasil e Cuba, sobre o que Cuba oferta em termos de profissionais… A manchete foi `Cuba criou o Mais Médicos`, como se um país que participa de uma pequena das dezenas de ações do Mais Médicos pudesse ser o criador do programa Acho que é uma tentativa política, uma tática do presidente eleito de tentar reeditar o clima da Guerra Fria aqui no Brasil”.

Padilha lembra que o programa, sob quais parâmetros usados para avaliação, sempre recebeu elogios de entidades internacionais e o apoio da população atendida.

“Ele é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como o maior programa de provimento de médicos que um país já fez em um tempo tão curto. A gente trouxe para as áreas remotas do país o que a Austrália demorou vinte anos para trazer –para as comunidades aborígenes, para as comunidades mais remotas—com um programa muito parecido com o nosso, ou seja, criar um programa, um registro especial de medicina, com avaliação mais curta, para o profissional só poder atuar nas áreas mais remotas.”

Com o programa, por exemplo, setecentos municípios brasileiros que NUNCA tinham tido um médico passaram a ser atendidos localmente –em 620 municípios desses, por médicos cubanos. Os profissionais de Cuba foram deslocados para os mais remotos locais, além de atenderem também a população pobre das grandes cidades –“Aqui ao lado, em Campinas, a Unidade Básica de Saúde não tinha um médico de família permanente antes de ter essa cubana. Isso em Campinas, uma cidade que tem três faculdades de medicina, que proporcionalmente tem mais médicos do que a maioria das cidades brasileiras. Imagine quando for falar da região amazônica, da periferia das grandes cidades”.

MEDICINA CUBANA

As acusações contra os médicos cubano e a medicina de Cuba não se sustentam, desmoronam frente a qualquer avaliação minimamente honesta.

“É só a gente comparar os indicadores de saúde e a renda média dos países, o PIB dos países, o que significa o investimento de saúde pública de Cuba”, diz Padilha, afirmando que nenhum país das Américas, com exceção do Canadá, tem indicadores semelhantes aos de Cuba.

Em alguns casos, nem o Canadá tem a excelência cubana: “Cuba, em 2015, alcançou a erradicação da transmissão do vírus do HIV da mãe para o feto. É o único país das Américas que alcançou isso – nem o Canadá conseguiu isso”.

Outros fatos: “Cuba desenvolveu uma vacina para meningite B, que é uma vacina que a gente usa há quase vinte anos aqui no Brasil, que foi um dos fatores fundamentais para a gente não ter mais epidemias de meningite –o mundo não ter mais!”.

E Padilha segue: “Quando fui ministro da Saúde, uma das missões públicas oficiais –ficam dizendo que eram secretas, mas a imprensa cobre, os resultados são divulgados—era para a transferência de tecnologia de dezenove produtos que Cuba desenvolveu, de medicamento para o câncer, vacina contra um tipo de câncer do pulmão –uma descoberta sensacional feita pela medicina cubana–, produtos para um problema sério que a gente tem, que é o chamado pé diabético –o maior fator de amputação de pés no Brasil é decorrente do chamado pé diabético. A pessoa tem diabetes e começa a ter, por conta disso, lesões no pé que chegam ao ponto de ter de amputar o pé. Cuba desenvolveu um produto para reduzir isso, transferiu isso para cá”.

“Ou seja, Cuba é um país absolutamente reconhecido em relação à sua saúde pública. Não à toa, essas missões que Cuba realiza por esses setenta países em todo o mundo são missões recomendadas pela Organização Mundial da Saúde.”

Mais: “Os médicos cubanos ficaram aqui cinco anos. Foram mais de vinte mil médicos. Pega a lista de erros médicos no Brasil. Veja se tem algum médico cubano. Não tem. Essa é uma demonstração prática da qualidade desses profissionais”.

RESISTÊNCIA E REAÇÃO

As ações e ameaças do presidente eleito ao sistema de saúde vão ter resposta, acredita Padilha: “Esses ataques geram impactos concretos, e acredito que isso vá gerar reação da sociedade e dos vários atores políticos. A interrupção do Mais Médicos vai gerar reação dos prefeitos, de todos os partidos. Já está gerando. O novo Congresso vai debater isso. Eu vou estar lá, como deputado federal eleito, vou debater isso, os prefeitos vão pressionar o Congresso sobre isso”.

Assim, apesar de o momento ser de retrocesso, Padilha acredita que é possível ter esperança: “A polêmica voltou, e é uma oportunidade para a gente discutir saúde, medicina, solidariedade entre os povos e na América Latina, acho que o Mais Médicos traz outros temas também. O Mais Médicos era um primeiro passo de uma revolução necessária a ser feita no sistema de saúde pública em nosso país.”